segunda-feira, 4 de junho de 2007

Pra não dizer que não falei de flores...

As flores de eucalipto dão um mel que somente quem já provou pode saber do que estou falando. E, segundo especialistas, tem propriedades medicinais superiores as do mel comum. Há um projeto em andamento, junto com as empresas de celulose, de montar cooperativas de produtores para trabalhar as florestas e produzir mel de eucalipto em quantidade suficiente para abastecer o mercado interno e até para exportação.

Não queria voltar ao assunto das florestas, mas parece que não há limites para a ignorância acadêmica sobre o assunto, principalmente quando os acadêmicos são da UFRGS. Em Santa Maria, houve um seminário regional sob o título sugestivo de “rumos na luta contra o deserto verde”. Na abertura, o professor da UFRGS, Paulo Brack, criticou duramente as universidades. Segundo ele, uma parcela importante da instituição está a reboque de um modelo de pensamento que privilegia o desenvolvimento de uma tecnologia para a exportação, que desconsidera a questão da dependência e a destruição do meio ambiente. Brack criticou o processo que tem levado a uma disseminação da monocultura, que antes se restringia à soja, e agora se estende para o eucalipto. E foi mais longe, disse que “estamos perdendo 150 mil hectares de terras ao ano do bioma pampa para as monoculturas”.

Vamos por partes... "uma parcela importante das universidades". Ele estaria se referindo às universidades da Metade Sul? E não há possibilidade desta "parcela importante" estar certa?

Se entendi bem, o professor também fala que a monocultura no Estado se restringia à soja! Como, caro professor? Já ouviu falar em lavouras de arroz? nos pomares de maçã? no trigo? na cevada? nos parreirais da serra? (monocultura também está nas pequenas propriedades). Ou, sentado em seu gabinete de Porto Alegre não consegue ver nada disso?

Quando ele fala que estamos perdendo 150 mil hectares anuais para monoculturas (ele fala no plural!), ele assegura que já temos uma agricultura forte e dinâmica na região o que, infelizmente, está longe de acontecer. Se está se referindo ao futuro, é provavel que consigamos plantar uma significativa área com eucaliptos, mas não destruindo o bioma pampa, que já está comprometido e aniquilado em praticamente toda a região. A única chance de alguma recuperação deste bioma, é uma atividade econômica que possa garantir a sobrevivência do que restou.

Mas o seminário foi pródigo em bobagens como mais esta: "o professor Paulo Zarth, do curso de História da Unijuí, fez uma relação entre desertos e latifúndios, segundo ele, algo histórico na Metade Sul do Rio Grande do Sul".

Estes e outros doutores, fazendo a cabeça dos estudantes. É, estamos conversados...

Imagem: foto do Pobre Pampa, próximo a Quaraí. Áreas arenificadas, praticamente sem nenhuma cobertura vegetal. Qual o melhor destino para isto? Assentamentos? Florestas? Deixar como está para ver como fica?

4 comentários:

CINEMAN disse...

O Prof Paulo Brack é um botânico com especialização em ecologia, segundo ouvi falar. Parece que seus trabalhos estão mais no Morro do Osso em Porto Alegre e na Mata Atlantica no Litoral Norte. Mas como já falastes a turma daqui (Porto Alegre) gosta de dar os seus palpites quanto ao destino da Metade Sul, as vezes sem nem conhecer o Pampa, ou o que restou dele. Apesar de achar que a formação de botânico, por natureza, não leva muito em conta os aspectos econômicos, a participação deles é muito importante.. desde que não seja na linha do pensamento único.

Pobre Pampa disse...

Detalhes do seminário no link: http://www.sedufsm.com.br/index.php?page=noticias¬icia_id=364. O interessante, é que os palestrantes, ao que tudo indica, eram todos da metade norte. Alguns professores da UFSM discordaram do rumo que o evento tomou.

E, durante o evento, apareceu o deputado Bonh Gass dizendo que a gravidade da questão o levou a solicitar que o Ministério Público faça cumprir a legislação sobre o meio ambiente. Bom isso! Então, estamos livres do zoneamento, por enquanto...

CINEMAN disse...

O Bonh Gass já é conhecido. Formado pelas comunidades eclesiais de base, acabou chegando a deputado. Hoje isto está meio fora de moda pois a Teologia da Libertação parece que foi para o saco. Claro que ele tinha que apoiar este movimento que cada vez mais mostra que está ligado a esta esquerda antediluviana, quase sem bandeiras, que ainda adora o Fidel Castro e não sabe o que dizer do seu antigo idolo, Lula. Mas o pessoal de Santa Maria não poderia ter deixado isto passar em branco. Atenção. Esta turma toda vai estar nas consultas públicas. E eles vaiam quem é contra a idéia deles. O pessoal da Metade Sul vai ter que participar ativamente destas consultas ou vai prevalecer a vontade dos intelectuais da Metade Norte.

Rubem Rosso Baptistella disse...

É, meus caros, o problema é mais complexo do que podemos resolver, no momento.
Importante, eu considero, ressaltar as possibilidades diferentes de visão de um mesmo tópico. Como exemplo eu cito os latifúndios de baixa produtividade, estes são responsáveis por um tanto de desigualdade e necessidades desatendidas de alguns, porém, muitas vezes também, são reservas do bioma natural pampeano. A monocultura do Eucalipto, a meu ver, segue rumo parecido, com duas faces. Como positivas (?): remuneração do proprietário das terras de maneira até certo ponto cômoda e razoável (considerada a miséria que muitos lucram atualmente) trazendo um tanto de empregos diretos no campo (no velho sistema desigual, muito trabalho e baixa renda) e atraindo algumas indústrias para a região, que gerarão mais alguns empregos (talvez um pouco melhores. Talvez...).
Em contraponto teremos: 1- muito mais poluição; 2- destruição de áreas de reserva ambiental não percebida (aquelas que estão lá, em boa quantidade ainda, subutilizadas, e nem percebemos o quão importantes são); 3- talvez uma migração de pobrezas vindas de outros recantos atrás de empregos e todas as suas conseqüências sociais, sem falar em outras; 4- a delapidação de nossa (pouca) riqueza de solo e o envio disso para o mundo consumir, sem os devidos retornos. Entre outros possíveis problemas que poderia citar se quisesse discorrer acerca disso.
Por fim, prende-se a devaneios e divagações sobre viabilidade e benefícios da atividade na região e esquecemos de equilibrar número populacional por área para a mantença do equilíbrio. É muita piada prum pobre par de ouvidos. Claro que devemos atender o povo que aqui está, mas temos que planejá-lo pro futuro. Abaixo as teorias de igrejas ou seja lá o que for mais, é razão pura.
Saudações aos leitores.