terça-feira, 3 de abril de 2007

REFORMA AGRARIA - UM PROJETO SÉRIO (2)

Logo que eu comecei a trabalhar no Banco de Desenvolvimento, talvez por causa de meu trabalho anterior com pequenos produtores rurais na antiga ASCAR (hoje EMATER), meu chefe na ocasião me escalou para analisar um projeto de colonização rural. Isto foi por volta de 1970, em plena revolução, com Medici como o general de plantão. A revolução, por incrivel que possa parecer hoje, tinha uma grande preocupação com a questão agrária e, descontada a experiência de Brizola no Banhado do Colégio e as desapropriações feitas pelo Jango na Belem-Brasilia, foi quem iniciou o processo de reforma agrária no Brasil. O Estatuto da Terra é criação do governo militar. Mas voltando, o projeto do INCRA (ou era INDA na época?) tinha como objetivo estabelecer um assentamento na região de Encruzilhada do Sul com filhos de produtores rurais da região de Encantado. O projeto era bem mais sofisticado que os atuais. Já como uma diferença fundamental utilizava agricultores, gente com experiência nas lides da terra. Os lotes eram de 20 a 25 hectares. Previa uma mecanização comunitária muito interessante, com tratores para cada grupo de 2 ou 3 produtores e colheitadeiras para cada grupo de 6 ou 7 produtores. Assistência técnica dada pelos agrônomos do próprio INCRA. Armazenagem dimensionada para a produção do núcleo. Pois todas as simulações que fizemos não davam viabilidade ao empreendimento. Claro que dentro de um raciocinio capitalista, ou seja, o projeto tinha que se pagar num período de dez anos. Não aprovamos o projeto comprando uma enorme encrenca com o INCRA. Na época comprar uma encrenca com o governo era muito complicado e arriscado.
Outro banco, um banco federal, acabou financiando o emprendimento. O desastre anunciado. Não creio que existam vestigios deste assentamento. Qual foi o erro fundamental do projeto? O mesmo de sempre. Tentar viabilizar a produção de comodities em pequena propriedade. O produto principal era o soja. Nada de gado de leite, frutas, suinos, coisas que aqueles produtores de Encantado até estavam acostumados a fazer. Não. Só soja. Era mais fácil..e inviável. Esta análise me deu certa fama em projetos de assentamento e acabei sendo convidado para analisar outro projeto, desta vez no Paraná. Era bem diferente. Em primeiro lugar não era o INCRA que patrocinava mas sim uma cooperativa de produtores rurais. Cooperativa de médios produtores rurais e que operavam agricultura com padrões bem acima da média. O assentamento era para os filhos destes produtores. Os lotes previstos eram acima de 100 hectares. Mecanização coletiva. Produtos: soja e trigo. Comodities, mas comodities em áreas compatíveis. A seleção dos filhos de agricultores foi por mérito. Os mais capacitados ganharam as terras. Tudo para dar certo, não? Aprovamos a operação. Custou muito a deslanchar. Houve sérios problemas nos quatro primeiros anos que preocuparam muito o Banco. Mas acabou dando certo, o empréstimo foi pago e o assentamento está consolidado. Eu sou um defensor da reforma agrária, sempre fui. Mas acho que a reforma agrária é um projeto muito sério. Não dá para fazer estas coisas que andam fazendo por aí. Vocês viram que um projeto muito bem feito, com agricultores com bom nível tecnológico, com áreas adequadas, com assistência técnica, com estrutura mercadológica, enfrentou dificuldades então o que é que pode acontecer com pessoas que nem agricultores são, sem nível tecnológico nenhum, assistência técnica zero, sem nenhuma preocupação ou conhecimento de mercado, em áreas incompatíveis com os produtos que pretendem produzir? É uma resposta fácil, infelizmente. A tragédia anunciada.
Até a próxima postagem

Um comentário:

Buggyman disse...

Sentimos na pele a ação dos burocratas de Brasília e Porto Alegre. Ao sentar-se atrás de suas mesas, com dados frios para serem compilados, esquecem de que há uma variável importante a ser considerada: a ação do homem. Sem uma profunda análise de quem vai ser o (para usar um termo em voga) "ator" deste projeto, tudo tende a dar errado.

É o que está acontecendo com a reforma agrária que está em evolução neste momento no Brasil. Os burocratas desenham uma situação perfeita, os políticos aceitam, os movimentos sociais vêem a oportunidade de ação e pronto! está feita a bobagem...

Mesmo um ex-agricultor, após passar um ou dois anos sob a lona preta, dificilmente vai ter condições físicas e psicológicas adequadas para trabalhar de sol a sol e tirar da terra seu sustento. Quantos destes novos assentamentos já foram emancipados pelo Incra no Brasil, ou seja, que tenham condições de auto-sustentabilidade? Na Metade Sul, nenhum!