sábado, 31 de março de 2007

Reforma Agrária - o que seria isto, realmente?


Um dos alvos prioritários do MST, aqui na Metade Sul, tem sido a Fazenda Southal, em São Gabriel. Improdutiva e com dívidas, seria a área ideal para fazer assentamentos produtivos. Mas o que aconteceu recentemente, coloca em dúvida as reais intenções dos fazedores de reforma que têm passado pelo Governo Federal: a fazenda, segundo peritos nomeados pela Justiça Federal, é produtiva... O INCRA, imediatamente, afirmou que, mesmo sendo produtiva, não estaria cumprindo sua função social, pois, segundo o superintendente do instituto, Mozart Dziedrichi, há utilização de áreas de preservação permanente no local.

Um momento... eles diziam que era improdutiva e isto deve implicar em não utilização das suas áreas para produção agropecuária. Agora, dizem que até mesmo as áreas de preservação estariam sendo utilizadas? Decidam-se!!!

Para registro: áreas de preservação permanente podem ser utilizadas economicamente, desde que não sejam descaracterizadas e aí entra a pastagem nativa, para a produção de carne. As áreas do Pampa devem ser tratadas de maneira muito delicada, realmente. É um sistema frágil, com solo raso e muito sujeito à erosão laminar, em função dos ventos. Esta seria a origem dos desertos do Alegrete, inclusive. Meter um arado nestas áreas, pode ser muito perigoso.

Mas o que mais me inquieta é a origem das famílias que, sistematicamente, têm sido assentadas na Metade Sul. Não são filhos dos colonos que existem aos milhares em nossa região. Não são oriundos da maior concentração de minifúndios da América Latina, que é a região de Canguçú, São Lourenço e interior de Pelotas. Não são colonos calejados e conhecedores do solo e do clima da região, como os de Colônia Nova, em Aceguá, área extremamente produtiva, sem apoio oficial. E os assentamentos que se instalaram por aqui não são mais produtivos que a fazenda Southal. Aliás, muito menos.

Enquanto temos dificuldades enormes de infra-estrutura social na região, agravamos nossos problemas com a importação de pseudo-produtores de outras áreas do Estado. Gente que, enganados com a promessa de uma nova vida, engrossam a fileira dos pobres daqui.

Em tempo: não defendo o latifundiário Southal, cuja dívida com o sistema financeiro seria maior que o valor de suas terras, mas um sistema de reforma agrária sério, que levasse em consideração a produção de alimentos, a dignidade do produtor e a paz no campo e não apenas divulgar o número de famílias assentadas (alguém já viu a divulgação de quantos permaneceram nos seus lotes?).

Uma reforma agrária com filhos de produtores que também precisam de apoio.

Uma reforma agrária com produtores que já estão no campo, mas que não têm condições ideais de produzir para seu próprio sustento e menos ainda para a sociedade.

Uma reforma agrária que não discriminasse os assentados que fizessem agricultura de longo prazo, plantando árvores - O INCRA ameaçou os produtores que estavam plantando eucaliptos com a perda de seus lotes, e a turba do MST arrasou com as pequenas árvores aos gritos de "morre bebedor de água"! Interessante notar que os lotes onde os eucalíptos eram maiores (exigiria o uso de machados e algum esforço físico) não foram depredados...

Imagem: Sachola (enxada) - Instrumento primordial para todo o trabalho manual da terra, como a mobilização, abertura de regos, corte de mato, etc. Foi sendo substítuida por máquinas que aproveitam a força dos animais para realizar as tarefas.

3 comentários:

Toscoman disse...

A questão agrária é muito mais uma questão político-ideológica do que agrária. Os assentados na maior parte das vezes nem ao menos são oriundos do campo - não são camponeses! Os que conseguem o tal pedaço de terra não raro vivem do arrendamento destas mesmas terras e voltam para engrossar as fileiras de grupos militantes. Apóiam de forma aberta grupos armados de outras partes da América Latina. Defendem Estados totalitários e por aí vai.

Mas o discurso é bonito e seduz uma boa parcela da população que reconhece a existência de um problema sério, a questão agrária e social.

Anônimo disse...

Meu querido...nem vou entrar no debate sobre reforma agrária. É puramente legislação: APPs (Área de preservação permanente)não podem ser utilizadas economicamente, são áreas que circundam rios, riachos, nascentes ou olhos d'água. Dá uma olhadinha na resolução do CONAMA. E outra coisa, é mesmo o agronegócio que mantém a metade sul, mantém nessa miséria.

PoPa disse...

Tens razão, anônimo. APP é uma área a ser íntegra. Eu queria me referir à Reserva Legal, que não é a mesma coisa.

Mas não é o agronegócio que mantém a Metade Sul nesta miséria. Talvez seja exatamente o contrário! Talvez por não ser um agronegócio "de verdade", com empresários tocando um verdadeiro negócio, é que estejamos com estes problemas. Costumo dizer que produtores não podem ser simplesmente produtores. Precisam ser empresários rurais, mesmo que pequenos. Um tambo pequeno precisa ser gerenciado corretamente, saber os custos de produção, minimizar estes custos e maximizar o uso de todo o potencial de produção que ele tem, seja em questão de mão-de-obra familiar, na manutenção dos equipamentos, nas compras de insumos.